A Vaca e o Hipogrifo || Mario Quintana

terça-feira, agosto 04, 2020


(Foto: Ismia Kariny)

As mãos que dizem adeus são pássaros que vão morrendo lentamente

Editada pela primeira vez em 1977, "A vaca e o hipogrifo" apresenta Mario Quintana no esplendor da maturidade como poeta. O título mostra a informalidade do autor, empregando constantemente expressões do cotidiano e se utilizando tanto da prosa quanto do verso – como em seu Caderno H, coluna que manteve durante décadas no Correio do Povo, de Porto Alegre. No entanto, mesmo com a espontaneidade aparente em sua escrita, que poderia soar ingênua com sua linguagem simples, encontra-se uma constante experimentação de formas. Em "A vaca e o hipogrifo", com mais de 200 textos, estão reunidos pensamentos, aforismos, anotações, poemas e breves crônicas, reunindo prosas, miniprosas e poemas. Por muitas vezes próxima à forma de um diário, o título permite experimentar o domínio de Quintana no contraste entre os versos e a prosa, que também se mesclam.


Coleção Folha - Grandes Escritores Brasileiros
Editora MEDIAfashion| 272 páginas | Data de publicação: 2008 | ISBN: 978-85-399896-44-0

DESTAQUES

Restaurante

[...]O café é tão grave, tão exclusivista, tão definitivo que não admite acompanhamento sólido. Mas eu o driblou, saboreando, junto com ele, o cheiro das torradas na manteiga que alguém pediu na mesa próxima[...] (p. 19)


Trecho de Carta

Se nunca nasceste de ti mesmo, dolorosamente, na concepção de um poema... estás enganado: para os poetas não existe parto sem dor. (p. 22)


Paraísos

As religiões cresceram entre os humildes porque aqueles que estavam por cima já se julgavam no paraíso. (p. 24)


Poder de síntese

     Um dia, Madame de Sevigné sentenciou: “O café passará, como Racine.” Ah, que poder de síntese, minha cara Madame! Como foi que a senhora conseguiu dizer duas barbaridades numa única frase?
     Poder de síntese, esse o tinha, de fato, Racine, quando, para darmos apenas um exemplo, conseguiu expressar a paixão, a crueldade, a complexidade do caráter de Nero num só verso de doze sílabas: “J’aimais jusqu’à ses pleurs, que je faisais couler!” (Eu amava até as suas lágrimas, que eu fazia correrem!)
     Sim, porque o verdadeiro sádico ama verdadeiramente a quem faz sofrer. Que o digam esses pretensos casais desunidos, que jamais conseguem separar-se. Só os sádicos? — pergunto eu. Recordemos aquelas palavras de Oscar Wilde, na Balada do cárcere: “A gente sempre mata aquilo que ama; os fortes com um punhal, os covardes com um sorriso.”
     Aliás, o Nero do alexandrino raciniano já tinha decretado a morte da sua amada, cujas lágrimas agora tanto o enterneciam.
     Haverá os santos do inferno? Nero deverá ter sido um deles...
     Porque na verdade é idêntico o nosso pasmo, quase incrédulo, tanto ante a vida de Nero como ante a vida de São Francisco de Assis. Porque os extremos sempre se tocaram. Porque os Santos — no seu prodigioso arrebatamento — são uma espécie de celerados do Bem. (p. 28)


Verbete

Autodidata. - Ignorante por conta própria. (p. 41)


Relax

     Aquele monstro que se chamou Champollion descansava de seus estudos de egiptologia escrevendo uma gramática chinesa.
     Porém, nós outros, os (relativamente) normais, que havemos de fazer?
     Palavras cruzadas?
     No entanto, o perigo das palavras cruzadas é nos inocularem às vezes, para todo o sempre, os mais estapafúrdios conhecimentos. Por exemplo, há duas semanas sou sabedor de que “rajaputro” significa “nobre do Hindostão, dedicado à milícia”. Espero, o quanto antes, esquecer tal barbaridade.
     O problema é substituir as preocupações pela ocupação.
     Quanto ao exercício da poesia, nem falar! Qualquer poeta sabe como dói, como é preciso virar a alma pelo avesso para fazer um verdadeiro poema — salvo se você for um poeta concretista, porque, na verdade, não há nada mais abstrato.
     Pois bem, falando em coisas sérias, o problema, seu poeta, é ocupar o espírito sem ao mesmo tempo estraçalhá-lo.
     E problemas assim — puros problemas — só mesmo os problemas matemáticos. Já o velho Pinel recomendava o estudo das Ciências Exatas como preservativo dos distúrbios mentais.
     A Matemática é o pensamento sem dor.
     Mas infelizmente sucede que a Matemática ainda é pior do que chinês para nós, que, nesta altura da vida, só não esquecemos as quatro operações e, quando muito, a regra de três e também a teoria dos arranjos, permutações e combinações — tão úteis no jogo do bicho.
     Que resta, então?
     Oh! como é que eu não me lembrei disso antes?! Resta-nos um passatempo esquecido: o proveitoso, o delicioso vício da leitura. (p. 44 e 45)


Gramática da felicidade

Vivemos conjugando o tempo passado (saudade, para os românticos) e o tempo futuro (esperança, para os idealistas). Uma gangorra, como vês, cheia de altos e baixos — uma gangorra emocional. Isto acaba fundindo a cuca de poetas e sábios e maluquecendo de vez o Homo sapiens. Mais felizes os animais, que, na sua gramática imediata, apenas lhes sobra um tempo: o presente do indicativo. E que nem dá tempo para suspiros... (p. 51)


Anotação para um Poema

As mãos que dizem adeus são pássaros
Que vão morrendo lentamente (p. 54)


Carrossel

     A coisa mais impressionante que existe são os olhos dos cavalos de carrossel, olhos que parecem estar gritando “avante!” — enquanto eles, nos altibaixos do galope, jamais podem sair do mesmo círculo.
     Deviam ser assim, igualmente estranhos, os olhos dos primeiros poetas que apareceram entre os homens porque olhavam através deles e para além deles. Já ouvi dizer que as tribos primitivas vazavam os olhos dos poetas... Também deviam ser assim os olhos dos Profetas porque a sua luz não era deste mundo. E aos homens assustava-os a beleza e a verdade.
     Ah, meus pobres cavalinhos de pau que acabo de encontrar parados no parque deserto... será que fiz um comício? Não há de ser nada... Em todo caso, do modo como falei, dir-se-ia que a beleza e a verdade são as duas faces da mesma moeda. Nada disso: elas são a mesma moeda. Tanto assim que, quando o sábio joga cara ou coroa, encontra a beleza e, quando o poeta joga cara ou coroa, encontra a verdade. (p. 65)


Bilhete a Heráclito

Tudo deu certo, meu velho Heráclito,
porque eu sempre consigo
atravessar esse teu outro rio
com o meu eu eternamente outro... (p. 84)


Clareiras

Se um autor faz você voltar atrás ma leitura, seja de um período ou de uma simples frase, não o julgue profundo demais, não fique complexado: o inferior é ele[...] (p. 95)


O Estranho Fichário

O cérebro humano arquiva tudo. Mas tudo mesmo! — insistem os sábios. O único transtorno em toda essa maravilha é que a gente vive perdendo as chaves do maldito arquivo... (p. 143)


A Grande Aventura

Estás cansado? Estás parado? Morto? E, no entanto, os teus primeiros sapatos continuam andando, andando, por todos os caminhos do mundo... (p. 154)


Diagnóstico Errado

Não tentes tirar uma ideia da cabeça de outrem porque, examinando bem, verás que em geral não se trata de ideias, mas de convicções. São inextirpáveis. E a causa única de todas as guerras — políticas ou religiosas, paroquianas ou internacionais. (p. 184)


A Morte Viva

     O pensamento da morte não tem nada de fúnebre, como pensam os supersticiosos.
     Nada tem ele a ver com a morte e sim com a vida; é ele que empresta a cada instante nosso este preço único, todo esse encantamento agradecido que os tímidos desconhecem...
     A morte é o aperitivo da vida. (p. 187)


Cautela!

Há dois sinais de envelhecimento. O primeiro é desprezar os jovens. O outro é quando a gente começa a adulá-los. (p. 215)


Ironia e Humor

     A ironia tem algo de desumano. Ainda mais com aquele ar de superioridade, mesmo que se trate de um Eça, cujo estilo o salvou. E quando digo estilo quero dizer o homem. Em Anatole France, nem isso: sua prosa era um pastiche dos clássicos; seu ceticismo, uma atitude. Tudo porque acabo de descobrir no diário de Jules Renard esta frase tão humana: “Só se tem o direito de rir das lágrimas depois que já se chorou.” Isto, agora, já não é ironia: é húmor. E, a propósito, a melhor discriminação que encontrei entre uma coisa e outra foi em Louis Latzarus em sua biografia de Rivarol: “A ironia é o espírito à custa dos outros; o humor é o espírito à custa própria.”
     P.S. — Neste agá, que vale pelas citações, verdade seja dita, usei a grafia “húmor”, proposta por Sud Menucci, como equivalente do “humour” britânico, num seu agudo e hoje infelizmente inencontrável ensaio publicado pela antiga Editora Monteiro Lobato. Mas um problema ainda resta: essa vaga designação de humoristas e humorismo — que, por exemplo, no mesmo saco de gatos, mistura Machado de Assis e Léo Vaz, tão finos, com MarkTwain, um grosso. (p. 237)


Perguntas & Respostas

     Paciente que sou de entrevistas, muita vez atendo a perguntas das mais estapafúrdias.
     — Por que está escrevendo à mão? Por que não usa a máquina?
     — Porque o tic-tic, o toc-toc ou o pue-pue da máquina me picota a cuca.
     As entrevistadoras (eram umas menininhas) gostaram do estilo. Foi de propósito. Especialmente para elas.
     Não que eu seja do tempo da pena de pato, contemporânea do punho de rendas. Buffon não podia escrever sem punho de rendas, creio que em atenção ao leitor. No entanto, o pessoal de hoje parece que tira as calças para escrever. Também em atenção ao leitor. Sinal dos tempos.
     Outra pergunta, às vezes feita por consulentes mais crescidas:
     — Mas por que o senhor não casou?
     — Porque elas fazem muitas perguntas.
     Mas estas são indagações inocentes. De colegiais. Em certas épocas, entrevistadores profissionais dão para fazer, todos eles, insinuações marotas:
     — A poesia deve alienar-se dos problemas sociais?
     — Calma, calma! Peço licença para observar-lhes que o velho Karl Marx só escrevia poemas de amor...
     Aí, o cara embatuca. Muito obrigado, meu velho Marx.
     Aliás, isto é que é mesmo um sinal dos tempos.
     Esses computadores, que só conhecem o sim e o não, vivem a impor-nos opções binárias. Se você não é branco, é preto; se você não é grego, é troiano; se não é da esquerda, é da direita. Onde “a encruzilhada de um talvez”, como dizia o hoje tão esquecido Euclides da Cunha?
     Pelo visto, somos uns robôs totalitários. Isto é, desconhecemos as dúvidas e as nuanças, antigos signos da inteligência. (p. 239 e 240)


Uma Frase para Albúm

Há ilusões perdidas mas tão lindas que a gente as vê partir como esses balõezinhos de cor que nos escapam das mãos e desaparecem no céu... (p. 257)


No Princípio do Fim

Há ruídos que não se ouvem mais:
— o grito desgarrado de uma locomotiva na madrugada
— os apitos dos guardas-noturnos quadriculando como um mapa a cidade adormecida
— os barbeiros que faziam cantar no ar suas tesouras
— a matraca do vendedor de cartuchos
— a gaitinha do afiador de facas
— todos esses ruídos que apenas rompiam o silêncio.
E hoje o que mais se precisa é de silêncios que interrompam o ruído.
Mas que se há de fazer?
Há muitos — a grande maioria — que já nasceram no barulho. E nem sabem, nem notam, por que suas mentes são tão atordoadas, seus pensamentos tão confusos. Tanto que, na sua bebedeira auricular, só conseguem entender as frases repetitivas da música Pop. E, se esta nossa “civilização” não arrebentar, acabamos um dia perdendo a fala — para que falar? para que pensar? — ficaremos apenas no batuque:
“Tan!tan!tan!tan!tan!”(p. 270)

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