Talvez o amor se revelasse como prosa...

sábado, setembro 12, 2020



     Por um momento, o coração de Anne acelerou estranhamente, e pela primeira vez seus olhos vacilaram sob o olhar fixo de Gilbert. Um rosado rubor coloriu a palidez de sua face. Era como se um véu que estivera pendurado diante de sua consciência fosse erguido, revelando sentimentos e verdades dos quais ela não suspeitava. Talvez, afinal, o romance não chegasse na vida de alguém com toda a pompa e majestade, como um alegre cavaleiro andante. Talvez chegasse silenciosamente ao nosso lado como um velho amigo. Talvez se revelasse em aparência de prosa, até que uma súbita flecha de iluminação fosse lançada em suas páginas e traísse o ritmo e a música. Talvez... talvez... talvez o amor nascesse naturalmente de uma bonita amizade, como a rosa de miolo dourado surgia de dentro das sépalas verdes.
     Então o véu caiu novamente. Mas a Anne que caminhou pela escura vereda não era a mesma que tinha chegado tão alegre na tarde anterior. Um dedo invisível tinha virado a página da mocidade, e diante dela estava aberta a página da feminilidade, com todos os seus encantos e mistérios, suas dores e alegrias.
     Gilbert, sabiamente, não disse mais nada. Mas, em seu silêncio, leu a história dos próximos quatro anos à luz da lembrança do rubor de Anne. Quatro anos de trabalho árduo e feliz... e, então, o galardão de conhecimento útil recebido, e um doce coração conquistado.
     Atrás deles, no jardim, a casinha de pedra repousava entre as sombras. Estava solitária, mas não abandonada. Ainda não tinha terminado com sonhos, risos e alegria de viver. Haveriam futuros verões para a casinha de pedra. E, por enquanto, ela podia esperar. E, sobre o rio, em seu confinamento lilás, os ecos aguardavam sua hora.

Anne de Avonlea,
Lucy Maud Montgomery

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