Oração: cartas a Malcom || C. S. Lewis

domingo, maio 03, 2020

(Foto: Ismia Kariny)

O último livro de C. S. Lewis é uma abordagem franca e honesta sobre a oração. Publicação póstuma, ainda assim permaneceu na lista dos mais vendidos por muito tempo.

Oração: cartas a Malcolm é um livro belamente concretizado e profundamente emocionante que trata dos temores e das fraquezas do homem. Em forma de cartas afetuosas e descontraídas a um amigo muito chegado, C. S. Lewis medita em várias questões relativas ao diálogo íntimo entre homem e Deus. Pondera sobre aspectos práticos e metafóricos da oração. Indaga sobre nossa real necessidade de falar com Deus e sobre a forma ideal de oração. Busca saber qual dos nossos muitos eus mostramos a Deus enquanto oramos. E muito mais. A carta final contém pensamentos instigantes sobre cristãos liberais, alma e ressurreição.


Editora Vida | 160 páginas | Data de publicação: 2009 | ISBN: 978-85-383-0133-2

DESTAQUES

CAPÍTULO II

Nada torna um amigo ausente tão presente quanto uma discordância. (p.5)

Quem presta atenção e conta os passos ainda não dança, apenas aprende a dançar. Sapato bom é aquele que passa despercebido no pé. A leitura torna-se prazerosa quando você não pensa mais nos seus olhos, na luz, na letra impressa, na grafia das palavras. O culto perfeito na igreja seria aquele que transcorresse quase de forma imperceptível para nós, porque nossa atenção estaria voltada para Deus. (p. 6)

[As palavras na oração] são apenas uma âncora, ou melhor dizendo, os movimentos da batuta de um maestro, não a música. (p. 15)

A crise do momento presente, assim como o poste telegráfico mais próximo, sempre parece maior do que de fato é. Não há o perigo de que nossas necessidades maiores, permanentes objetivos - em geral mais importantes - acabem banidas de nossas orações [justificando as orações "pré-fabricadas"]? (p. 16)

Quando Dante¹⁴ viu os grandes apóstolos no céu eles lhe pareceram semelhantes a montanhas. Há muito que dizer contra devoção aos santos; mas pelo menos eles nos lembram de que somos seres muito pequenos se comparados a eles. Quanto mais ao seu mestre! (p. 17)

CAPÍTULO III

O ato sexual, quando lícito — o que significa sobretudo quando coerente com a boa-fé e a caridade — pode, a exemplo dos demais atos meramente naturais ("quer considerando, quer bebais", como diz o apóstolo),² ser realizado para a glória de Deus, e aí então será santo. E como outros atos naturais, às vezes nós o praticamos dessa maneira, às vezes, não. (p. 20)

(...)Não fosse pelo nosso corpo, um reino inteiro da Glória Divina — tudo que recebemos por meio dos sentidos — passaria por nós sem que lhe déssemos o devido louvor. Isto porque os animais são incapazes de percebê-los, e os anjos, suponho, são inteligências puras. Eles compreendem as cores e os sabores melhor do que nossos cientistas, mas têm eles retina ou palato? Creio que as "coisas belas da natureza" são um segredo que Deus decidiu partilhar conosco apenas. Talvez seja esta uma das razões pelas quais fomos criados — e também por que a ressurreição do corpo é uma doutrina importante. (p. 23 e 24)

CAPÍTULO IV

De modo geral, ser conhecido de Deus significa estar, para esse propósito, na categoria das coisas. Somos como as minhocas, o repolho e as nebulosas, objetos do conhecimento divino. Contudo, quando nos (a) conscientizamos do fato — do fato em questão, não de generalizações — e (b) consentimos com toda a nossa vontade em sermos assim conhecidos, segue-se que nos relacionamos com Deus não como coisas, e sim como pessoas. Nós nos desvendamos, o que não significa que o véu agora retirado pudesse ter confundido essa visão. A mudança está em nós. O que era passivo torna-se ativo. Em vez de sermos apenas conhecidos, nós nos mostramos, nos manifestamos e nos oferecemos à vista. (p. 27)

Não há barulho mais evidente do que aquele que tentamos não ouvir. (p. 31)

CAPÍTULO VIII

Não é verdade que cada movimento da paixão responde forma contundente algum elemento comando sofrimento de nossa raça? Em primeiro lugar, a oração da angústia, que não é aceita. Em seguida, Ele se volta para Seuus amigos. Eles estão dormindo — como os nossos, ou como nós estamos tantas vezes ou ocupados, ou distantes, ou preocupados. Depois, Ele encara a igreja, a mesma igreja que Ele trouxe à existência. Ela O condena. Isso também é típico. Em toda a igreja, em toda a instituição, há alguma coisa que, mais cedo ou mais tarde, trabalha contra a razão de sua própria existência. Todavia, parece haver outra possibilidade. Há o Estado, no caso, o estado romano. Suas pretensões são muito inferiores às da igreja judaica, mas exatamente por isso ele se vê livre dos fanatismos locais. Ele diz ocupar apenas um nível rústico, mundano. Sim, mas só na medida em que isso não contrarie seu expediente político e sua raison d'etat.⁵ Tornamo-nos uma ficha em um jogo complicado. No entanto, nem tudo está perdido. Existe ainda a possibilidade de apelar ao povo — os pobres e o simples a quem Ele abençoou, a quem curou, alimentou e ensinou, a quem Ele pertence — Contudo, esse povo se tornou, da noite para o dia — não há nisso nada de excepcional — a turba assassina que pede seu sangue. Nada mais resta, portanto, senão Deus. E, para Deus, as últimas palavras de Deus foram: "Por que me abandonaste?".⁶ (p. 58 e 59)

CAPÍTULO IX

Há tempos concordamos que, se nossas orações são atendidas, isso acontece desde a fundação do mundo. Deus e Seus atos não estão circunscritos ao tempo. A relação entre Deus e o homem ocorre em momentos específicos para o homem, mas não para Deus. (...)Nossas orações são ouvidas — não diga "foram ouvidas" para não situar Deus no tempo — não apenas antes de as fazermos, mas antes mesmo de existirmos. (p. 64)

CAPÍTULO X

Uma antiga máxima  diz que Cristo morreu não só em favor do Homem, mas em favor de cada homem, como se cada um fosse o único. Não poderia eu pensar o mesmo do seu ato criador - o qual, estendido no tempo, chamamos de destino ou História? Foi por causa de cada alma humana que Ele morreu. Cada uma delas é um fim em si mesma. Talvez por causa de cada animal. Quem sabe por causa de cada partícula de matéria — o céu noturno deixa transparecer que o inanimado também tem para Deus algum valor que não podemos imaginar. Seus caminhos não são (ao menos nesse aspecto) como os nossos. (p. 73)

CAPÍTULO XIV

Podemos ignorar a presença de Deus, mas não fugir dela em lugar nenhum. O mundo está repleto dEle. Deus caminha por toda parte incognito. (...) A presença que evitamos de livre e espontânea vontade costuma ser, sabemos disso, Sua presença enfurecida. (p. 97)

CAPÍTULO XVII

Deve-se aprender a caminhar antes que se possa correr. Aqui é a mesma coisa, Nós — ou pelo menos eu — não devemos ser capazes de adorar a Deus nas ocasiões mais ilustres se não adquirimos o hábito se fazê-lo nos mais triviais. Na melhor das hipóteses, nossa fé e razão nos dirão que Ele é adorável, embora ainda não tenhamos descoberto isso, não "provamos e vemos".⁵ Qualquer raio de sol incidindo sobre uma graveto lhe mostrará algo sobre o sol que você não encontraria lendo livros de astronomia. Esses prazeres puros e espontâneos são "raios da luz de Deus" sobre os gravetos da nossa experiência. (p. 116 e 117)


Notas elencadas nesse fichamento

- Capítulo II

¹⁴ A divina comédia, Paraíso, XXV, 38. Dante tem em mente três apóstolos: Pedro, Tiago e João, que representam a Fé (Canto XXIV), a Esperança, (XXV) e o Amor (XXVI), respectivamente. [N. do T.]

- Capítulo III

² 1 Coríntios 10.31, ARA

- Capítulo VIII

⁵ "Razão de Estado" em francês, no original, isto é, o expediente político de respeito ao ponto de vista do governo nacional. [N. do T.]

⁶ Mateus 27.46; Marcos 15.34

- Capítulo XVII

⁵ V. Salmos 34.8


REFERÊNCIA

LEWIS, C. S. Oração: cartas a Malcom: reflexões sobre o diálogo íntimo entre homem e Deus. São Paulo: Editora Vida, 2009. 160 p.

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