A arte está na simplicidade

quarta-feira, outubro 31, 2018

Quadro em Vila das Artes | Foto: Ismia Kariny


O mundo nunca sofrerá com a falta de maravilhas, mas apenas com a falta de capacidade de se maravilhar.
— G. K. Chesterton

       Em uma terça-feira de outubro eu visitei o Vila das Artes. E ao adentrar aquele enorme casarão, que um dia foi o lar da família Leite Barbosa Pinheiro, não foi a arquitetura ou a escadaria adornada que me chamou a atenção. Nem mesmo os quadros e as pinturas. E sem mencionar aquele desenho de mosca enorme no meio do saguão principal. Meus olhos, na verdade, não se desprendiam era do vai e vem da correria e da brincadeira das crianças; da rodinha de conversa das mães; e também do caminhar dos palhaços em suas pernas de pau tão altas quanto o riso da plateia.


       É encantador como o ambiente de aconchego e familiaridade do casarão harmoniza com o som da música. E ela caminha pelos quatro cantos do salão, acompanhada pela dança de saltos e pliés da garotada. Somado a isto, o último ingrediente: paixão. Fazendo com que aquele simples piso de madeira se tornasse palco de um espetáculo de vida e arte. Enquanto isso, em outras salas do casarão, jovens revelavam seus talentos dando movimento, também, as imagens. Em um conjunto de frames que não contam apenas histórias, mas transparecem sonhos. Porque não é apenas o corpo que dança, mas o pensamento e o olhar que também se entregam a arte.

       “Movimento, vida e arte” foram as palavras que preencheram o meu imaginário naquela tarde, e não as canso de repetir. E há também o humor, que é como um antídoto para nosso espírito, uma fuga da realidade. Porque o riso liberta a gente. E a arte possibilita estender essa liberdade a outros. Ainda que transformemos nossa própria história em um disparate, ou que por um segundo, apenas, sejamos outra pessoa. Poder alcançar o olhar e tocar a alma de alguém é viver e produzir arte em sua essência. Com isto eu percebi que ali não se formavam apenas os artistas, nasciam também os amantes das artes.

       Assim, devo confessar que já faz um tempo que venho tentando entender estes fenômenos artísticos. E não há consenso. Já ouvi falar de diversas definições, como a arte ser a expressão do ser humano, o reflexo da alma, ou a representação do belo. E além de todos estes conceitos sofisticados, naquela terça-feira de outubro eu percebi que a arte, para mim, é o simples. Vai da beleza do olhar e do sorriso das crianças, que brincavam, saltitavam, e faziam acrobacias pelo piso de madeira do salão; até o contraste das pedrinhas brancas e o verde das árvores, que formavam um lindo quadro com as mães que estavam a bater papo, a espera do fim do espetáculo do ensaio das pequenas bailarinas.

       Já Roger Scruton traz a definição mais adequada às minhas percepções: “A bela obra de arte traz consolação na tristeza e afirmação na alegria. Ela mostra que a vida humana vale a pena”. E se a arte é uma expressão humana, que retrata beleza e revela um estado da alma, seria o fazer artístico a obra de arte mais expressiva que encontrei no Vila das Artes? A resposta, como eu disse, está no simples. A dança não é o que alimenta a nossa alma, é o movimento. Não é a música, mas a melodia, que nos faz sentir vivos. Não é a interpretação, mas o sentimento que ela inspira que nos faz sonhar. E, acima de tudo, arte é liberdade, leveza, e um olhar diferente sobre o mundo.


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Ismia Kariny, em Olhar Fortaleza
Disciplina de Jornalismo Impresso II
Universidade Federal do Ceará

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