Para todos os amigos que já amei

sábado, setembro 22, 2018



"Não sabemos dizer o momento preciso em que se forma a amizade. Ao enchermos um jarro gota a gota, a última faz o jarro transbordar; assim, numa série de gentilezas há uma última que faz transbordar o coração"
— James Boswell
       
       Nunca fui assim tão sociável e não sei fazer uma conversa render; penso demais antes de falar com quem não conheço; acho difícil parecer simpática, me exige um grande esforço, mas gentileza sempre aquece meu coração. A interação social que eu mais gosto não é de palavras, é de sorrisos. Gosto de reconhecer a alma pelos olhos, porque palavras manipulam e enganam. Não me considero interessante. Posso até fazer uma lista de mercado com todas as qualidades que me faltam para encomendar na feirinha das virtudes.
       E talvez em algum momento, assim bem raro, eu tenha parecido um pacote atraente, no qual alguém resolveu apostar. E eu nunca antes tive tantos amigos... até que comecei a ter.


Para todos os amigos que eu já amei, essa é uma carta de despedida. Gostaria que não fosse um adeus, mas preciso dizer “até logo”. Até o dia em que a gente se esbarre, e as conversas não sejam constrangidas; até o dia em que nossos risos estejam em verdadeira sintonia. Até o dia em que a nossa amizade não seja mais de convivência, mas de igualdade. Porque eu aprendi que a amizade é compartilhar de uma mesma verdade, é reconhecer no outro um pouco de si.

A amizade é como um broto que a gente rega, e uma criança que a gente cuida, ensina, aprende com ela e vê crescer. E para todos os amigos que eu já amei, peço perdão por ter sido negligente. Eu entendo que talvez isso não importasse tanto para vocês.

Eu preciso dizer adeus porque eu não sei me desfazer nem mesmo das pequenas coisas, imagina das que um dia considerei com tanto carinho, como se tivessem o tamanho do infinito? Eu guardo cada lembrança como se fosse meu bem mais precioso, e preciso dizer adeus porque a saudade não cabe mais aqui dentro. Tá na hora de guardá-las em uma caixa junto de todas as outras coisas que não consigo me desfazer, mas também não posso continuar a estimar.

Nos encontros e desencontros, na encruzilhada desta vida, eu conheci muita gente. E foi sempre assim: alguns chegam, permanecem por um tempo, e vão embora. Muitos parecem como uma chuva de verão, que vez ou outra faz uma visita, só Deus sabe quando volta. E tem aqueles que a gente abraça com tanta força, que parece ser para sempre, até que... não era, não. Nem sempre a gente ama na mesma intensidade. A reciprocidade é o que mantém dois indivíduos unidos em um laço, e tentar forçar essa união através de nós cegos não é nada saudável.

Aos amigos, que um dia eu amei, eu agradeço por cada faísca, cada furacão, cada despertar para a vida que eu só desfrutei durante o tempo que passei com vocês. Vocês deixaram uma bagunça que fez do meu coração um verdadeiro lar. E eu não sei se esta carta será o fim, de fato. Se é com adeus ou até logo, não sei como devo terminar. Mas quero falar agora aos amigos que um dia eu amarei: quando nos encontrarmos por esta encruzilhada - mesmo que depressa, como chuva, e que só pareça ser infinito -, não se acanhem, não. Porque sei que um dia, entre essas idas e vindas, alguém vai decidir ficar.

(Continua)

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