Os computadores também sonham?

segunda-feira, maio 28, 2018

Imagem: Forbes

Os Computadores também sonham? Para uma Teoria da Cibercultura como Imaginário é um artigo de Erick Felinto que foi apresentado no VIII Congresso da Associação Latino-Americana de Investigadores da Comunicação (ALAIC) em 2016. Aqui o autor discute a relação da cibercultura com o imaginário, apresentando uma abordagem tecnológica, materialista e culturalista das questões mais urgentes do mundo pós-moderno.



"É fato que não há domínio da vida contemporânea que não esteja, de certo modo, embebido na experiência tecnológica. É fato também que todacultura é, desde sempre, uma “tecnocultura”, como sugere Erik Davis (1998, p. 10). Porém, a cibercultura parece ser aquela esfera da experiência contemporânea na qual o componente tecnológico passa a ser pensado, reflexivamente, como o fator central determinante das vivências sociais, das sensorialidades e das elaborações estéticas. Em, outras palavras, mais que uma tecnocultura, a cibercultura representa um momento em que a tecnologia se coloca como questão essencial para toda a sociedade em todos os seus aspectos, dentro e fora da academia."

"A miniaturização das tecnologias de comunicação, bem como sua crescente mobilidade, presentes em aparatos como telefones celulares, palmtops e notebooks tornaram a comunicação mediada um fenômeno tão ubíquo que já não é mais possível escapar do mandado da comunicação. Temos de nos comunicar sempre, com cada vez mais freqüência e eficácia. Como sugere Sfez, todas as tecnologias de vanguarda enraízam-se num único princípio: a comunicação (1994, p. 21). A cibercultura representa, nesse sentido, o instante supremo de realização da comunicação tecnológica: sem limites, sem fronteiras, sem ruídos – uma comunicação total. E diversos estudos recentes, como When Old Technologies were New (1988) ou Haunted Media (2001) têm envidado esforços no
sentido de mostrar que
não somos a primeira geração a maravilhar-se com as rápidas e extraordinárias mudanças nas dimensões do mundo e dos relacionamentos humanos nele compreendidos como resultado de novas formas de comunicação, ou mesmo a primeira geração a ser surpreendida pelas alterações que essas mudanças ocasionam nos padrões regulares de nossas vidas. Se nossa experiência própria é única em detalhe, sua estrutura é caracteristicamente moderna.
"Na cibercultura, o valor supremo é a informação representada numericamente. Em outras palavras, a cibercultura promoveu uma radical “informatização” do mundo – uma visão na qual toda a natureza, incluindo a subjetividade humana, pode ser compreendida como padrões informacionais passíveis de digitalização em sistemas computadorizados."

"Se o homem pode ser traduzido em partículas de informação discretas, então por que não seria possível aperfeiçoá-lo através da manipulação consciente dessas mesmas informações? As novas biotecnologias encontram-se, assim, com o campo das novas tecnologias computacionais. A cibercultura constitui um universo no qual cada átomo e partícula se traduzem efetivamente em informação e comunicação."

"Afinal, que tipo de definição poderia nos ajudar a conquistar uma visão mais precisa a respeito da cibercultura? Segundo André Lemos, ela se constitui essencialmente como “cibersocialidade”, ou seja, “[...] uma estética social alimentada pelo que poderíamos chamar de tecnologias do ciberespaço” (2002, p. 95). Contudo, essa definição se limita a abarcar os impactos sociais gerados pelas formas de comunicação engendradas no espaço da rede mundial de computadores. O próprio pesquisador reconhece, em diversos momentos, que a cibercultura ultrapassa largamente esse domínio, ainda que seja inegável a importância de seus vínculos com o conceito de ciberespaço. A presença do prefixo “ciber” em diversas outras palavras em voga – de “cibersexo” a “ciberarte” – é indicativa do caráter difuso que a cibercultura possui na contemporaneidade."



A Investigação das Relações entre Materialidades e Imaginários Tecnológicos


"Um “imaginário tecnológico” é uma espécie de força social que projeta sobre a tecnologia determinadas imagens, expectativas e representações coletivas. A cibercultura poderia, assim, ser definida como um imaginário tecnológico fecundado a partir do paradigma (e visão de mundo) digital. Nesse imaginário, a relação que se estabelece com o componente tecnológico seria definida mais ou menos nos seguintes termos: “qualquer tecnologia representa uma invenção cultural, no sentido que as tecnologias trazem à luz um mundo; elas emergem a partir de condições culturais particulares e, por sua vez, ajudam a criar novas situações culturais e sociais” (ESCOBAR, 2002, p. 56). O imaginário tecnológico compreende, portanto, os processos por meio dos quais características, projetos e sonhos de determinadas época e sociedade se plasmam em aparatos materiais, bem como o impacto que esses aparatos ensejam, uma vez convertidos em realidades do cotidiano, na imaginação coletiva da cultura no seio da qual foram concebidos."

"A cibercultura se manifesta como um imaginário no qual o paradigma digital chega para realizar um sonho imemorial da humanidade: a transcendência das limitações humanas, a manipulação da realidade convertida em padrões de informação, a conquista absoluta da natureza e das leis do cosmos – em uma palavra, a divinização do homo ciberneticus . Nesse horizonte, a tecnologia se apresenta como uma espécie de magia. O irracional primitivo, aparentemente expulso da cultura pelo desejo de ciência da modernidade, retorna na forma de um fetichismo tecnológico no qual as máquinas adquirem valor imanente e são pensadas como seres dotados de agência própria."

"Nenhum imaginário é produção autônoma de um sujeito livre, independente do mundo material e histórico que o cerca. Mesmo numa concepção tão humanista e subjetivista de imaginário como a de Gilbert Durand, é impossível eliminar o papel das matérias e dos contextos na determinação das imagens. (...) Numa cultura como a nossa, de natureza profundamente hermenêutica, a questão da materialidade tendeu a ser obscurecida pelo foco situado na interpretação dos fenômenos. Mesmo no campo da comunicação, a maior parte das metodologias e escolas de pensamento (por exemplo, estudos de recepção, análise do discurso, análise da imagem, etc) tem operado a partir de um paradigma hermenêutico."

"Por outro lado, a tecnologia é ainda “[...] incorporada e vivida pelos seres humanos que se engajam a ela dentro de uma estrutura de sentidos e metáforas na qual as relações sujeito-objeto são cooperativas, co-constitutivas, dinâmicas e reversíveis” (SOBCHACK, 1994, p. 85). O estudo das interfaces e das materialidades tecnológicas, que adquire importância crescente no contexto da cultura digital, deverá nos auxiliar, nos próximos anos, a entender melhor nossas relações com a tecnologia e suas imagens e usos sociais."

A Adoção de uma Visão “Culturalista”


"Investigar o imaginário tecnológico contemporâneo exige que adotemos, antes de tudo, aquilo que chamo de uma visão “culturalista”. Em outras palavras, é preciso partir do princípio de que os vários discursos e representações sociais sobre a cibercultura constituem uma totalidade cultural “coerente”. Quando digo coerente, não quero dizer sem contradições. Trata-se de enxergar a cibercultura e toda a miríade de fenômenos que lhes são associados, em seus aspectos econômicos, sociais, tecnológicos e comunicacionais, como um sistema dotado de sentido e dirigido para determinadas finalidades."

"Como novíssimo campo de estudos, a cibercultura tem certamente muito a oferecer à comunicação. Contudo, sua complexidade e amplitude irão exigir dos pesquisadores cada vez mais flexibilidade e desenvoltura em relação a diversas disciplinas e saberes. Como imaginário, a cibercultura nos oferece um vasto repertório de sonhos e visões utópicas ou distópicas. Mas nem todas as utopias são benfazejas. Breve, teremos de escolher quais desses sonhos realmente valem a pena sonhar."




Referência:  FELINTO, Erick. OS COMPUTADORES TAMBÉM SONHAM?: Para uma Teoria da Cibercultura como Imaginário. In: VIII CONGRESSO DA ASOCIACIÓN LATINO-AMERICANA DE INVESTIGADORES DE LA COMUNICACIÓN (ALAIC), 2016, México. Anais... . Porto Alegre: Intexto, 2006. p. 1 - 15.



Disciplina: Cibercultura
Universidade Federal do Ceará

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