Ciberativistas nas Redes e Ruas

terça-feira, maio 29, 2018

Imagem: resource.co


Fabio Malini é ensaísta, professor e pesquisador sobre ciências de dados, redes sociais e Comunicação Política. Graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Espírito Santo em 2000, e ganhador do Prêmio Intercom de Melhor Trabalho de Graduação com a monografia Do popular ao virtual: as políticas de comunicação nos governos municipais de Vitória (1989-2000). Em seu livro A Internet e as Ruas, ele discute sobre as mobilizações que nascem a partir dos espaços virtuais e migram para as ruas, mostrando a relação colaborativa que há entre os protestos no espaço físico com o ativismo nas redes sociais.





Fichamento

A Internet e a Rua: ciberativismo e mobilização nas redes sociais
(Fábio Malini e Henrique Antoun)


1. Monitoramento dos dados, vazamento da informação e anonimato do público


"A Internet de hoje se transmutou, sem dúvida. A atuação social, a mobilização e o engajamento viraram um valor da rede, contrapondo aquele pensamento de felicidade eterna da web comercial, que contaminava a economia e a política. Em grande medida, essa metamorfose tem a ver com a emergência das dinâmicas ativistas, já no fi nal dos 90, que fizeram resgatar o sentido originário peer-to-peer da Internet, dando a ela um novo uso, ao promover diversas inovações, que vão do Napster ao Pirate Bay, dos blogs aos mashups, dos sistemas de troca de arquivo às mídias sociais colaborativas, do jornalismo cidadão neozapatista à tuitagem iraniana."

"O que faz estar na ordem do dia a discussão sobre o embate do poder da TV com o poder do YouTube. Ou então o debate sobre o poder dos jornais e o poder dos blogs. A lista poderia se alongar inutilmente, pois o que está se discutindo é o poder das mídias irradiadas de massa em relação às mídias distribuídas de multidão. Hoje cada vez mais se explora e se esgarça o confronto entre os veículos da informação massiva e as interfaces da comunicação coletiva."

"O fato é que a mídia irradiada vem sofrendo sucessivos e inesperados revezes em áreas onde, antes, o seu domínio tinha por limite o orçamento monetário de quem a contratava. Cada vez mais ela vê seu lugar de mediadora social da opinião pública ser denunciado e rejeitado como coercitivo por partes signifi cativas das grandes massas, que antes se deixavam de bom grado representar (Rushkoff, 1999)."

"Daí que, por ora, há todo um conjunto novo de disputas e conflitos sobre a produção e a regulação da liberdade na Internet, na medida em que todo o valor capitalista está radicado em fazer os conectados livres permanecer dentro de limites programáveis e de conexões preestabelecidas, para recolher destes toda a sua produção social. É o paradigma de produção colaborativa do “tudo é meu” (Malini, 2008). Na contramão deste movimento, há todo um outro que visa infl ar de liberdade a rede, a partir da disseminação de dispositivos que aceleram a socialização e o compartilhamento de conhecimentos, informação e dados, seguindo novos modelos de direito público, abrindo um conflito com a governança capitalista da liberdade na rede."

"Antes da Internet ocupar o centro do debate comunicacional, havia se tornado um lugar comum considerar o modelo indutivo hermenêutico da mídia de massa um padrão para o estudo da mediatização na sociedade contemporânea. O caráter hipnótico da emissão com frequência intensa de uma mensagem amplamente distribuída casa-se com a sua sonâmbula recepção de extensa ressonância, confi gurando uma massa estúpida que reproduz a disposição que lhe foi sugerida neste processo feito à base de redundância. Empiricamente isto se traduz pela repetição regular de ideias associadas, expressões ou tipos de imagens através de diferentes meios concorrentes, gerando a sensação de realidade amparada na familiaridade trazida pela regularidade da repetição (Deleuze e Guattari, 1980)."

"A abordagem feita pela teoria da recepção e dos estudos culturais procura abrandar uma visão apocalíptica deste fenômeno nos lembrando que ninguém pode sonambular indefi nidamente, e mesmo um sonâmbulo precisa acordar de vez em quando. Esta teoria vai valorizar a capacidade do receptor de construir seus próprios nexos e significados fazendo uma leitura original do que lhe é enviado pelo emissor. O processo comunicacional seria de fato parte do processo cultural, tendo o receptor o mesmo tipo de liberdade que um novo membro formado em alguma cultura. De qualquer maneira uma liberdade de leitura e interpretação não é o mesmo que uma liberdade de construção e emissão. Mesmo o leitor mais ativo é ainda passivo na perspectiva da luta para produzir a informação capaz de transformá-lo em um sujeito com atividade e autonomia. Sobretudo quando a homogeneidade da atividade editorial se presta à condução das guerras de informação que hoje orientam a competição na política e nos negócios (Kopp, 2000; Arquilla e Ronfeldt, 2001)."

"O fato que sobressai é o quanto a teoria da recepção parece ingênua em face da realidade da guerra da informação, que tem como um de seus fundamentos a disciplina do gerenciamento da percepção. O uso da informação para confundir, decepcionar, desorientar, desestabilizar e desbaratar uma população ou um exército adversário marca a transformação radical da informação usada como arma de guerra (Kopp, 2000). (...)Em termos gerais toda operação conduzida para explorar informações para obter uma vantagem obre um oponente e para negar ao oponente informações que poderiam lhe trazer uma vantagem faz parte da guerra de informações (Kopp, 2000)."

"Tornava-se imperativo analisar os fundamentos políticos que regem os discursos de liberdade que são disseminados pelos atores que constroem a Internet de hoje e de ontem. Esta análise visa extrair um modo de compreender a economia do poder em disputa, instaurada pelos diferentes atores em conflito da sociedade em rede. Para tanto, vamos avaliar os processos denarração coletiva dos acontecimentos públicos, entendidos como laboratórios dessas disputas. Desta avaliação vai emergir que as novas narrativas multitudinárias vão fazer a passagem do modelo informacional das mídias, que privilegia a acumulação quantitativa proprietária de produtos, para o modelo comunicacional das multimídias, que privilegia a coordenação da ação coletiva nos movimentos."


2. Monitoramento e disputa pela primazia das narrativas


"O choque de poderes entre as mídias de massa e as interfaces de usuários é um fato inegável. A mídia irradiada cada vez mais ressalta seu poder de atingir uma quantidade imensa de público em uma só tacada. Do ponto de vista da formação cultural, a produção de subjetividade da mídia massiva esbarra em seu produto mais notório: os fans – esses pequenos fanáticos com momentâneas opiniões compactas disseminados em profusão pelo poder da irradiação (Jenkins, 2006). Ela produz seus efeitos em prazo curto, gerando estes pequenos fanatismos em torno de suas causas."

"Os dois processos ganharam nomes dados pelos analistas de segurança do Departamento de Defesa dos EUA. O uso intensivo dos grandes meios massivos, pertencentes às corporações, para gerar a impressão de realidade sobre algum tipo de acontecimento foi chamado de guerra da informação (infowar). Através desta guerra, a informação é usada para produzir efeitos de percepção ou efeitos afetivos sobre alguma população ou grupo social, visando tanto promover ou inibir sua própria ação enquanto grupo, quanto inibir ou promover algum tipo de ação social sobre esta população. Através destes efeitos, um certo tipo de narrativa ganha foros de verdade no seio da opinião pública e passa a dominar a discussão sobre o tema (Kopp, 2000; Schwartau, 1995)."

"O uso intensivo das interfaces de comunicação da Internet para estabelecer uma verdade narrativa sobre algum acontecimento e disseminar narrativas sem lugar na mídia corporativa foi chamado de guerra em rede (netwar). Através desta guerra, movimentos sociais ou pequenos grupos podem disputar a primazia da narrativa verdadeira com Estados, instituições e corporações conversando e argumentando com os mais variados membros que frequentam sua teia de páginas web, grupos de discussão, redes sociais, blogs e outras interfaces de comunicação distribuída (Cleaver, 1999; Arquilla e Ronfeldt, 1996)."

"Embora esses dois processos sejam muito diferenciados eles pressupõem a primazia do valor afetivo da comunicação e o mútuo monitoramento dos dois tipos de mídia por seu público em uma disputa ativa pela primazia em algum tipo de narração social e ação coletiva. A narrativa vitoriosa será aquela que obtiver a confiança da opinião pública (Arquilla e Ronfeldt, 2001, Antoun, 2004b)."


3. A liberdade “negativa”, ou o biopoder na Internet


"A Internet é um campo social, como muitos outros, onde a liberdade está em disputa. Na verdade, quando dizemos “liberdade” entende-se aí os mecanismos e atos autônomos de cooperação social que permitem o exercício do poder (e contrapoder), a produção social e a ativação psicológica de afetos. Em certo sentido, essa defi nição se complementa à acepção espinosista que define o homem livre como aquele que se realiza na sociedade civil, onde se vive de acordo com leis comuns, e não na solidão e no isolamento, onde se obedece apenas a si mesmo. A liberdade, de longe, não se esgota no sentido liberal de “direito de ter propriedade” (de ideias, de mercado, de terras, etc.), nem mesmo no sentido hobbesiano de “ter força para suplantar o outro”. Hoje o cerne do debate sobre liberdade está no direito de produção autônoma de formas de vida, que não sejam atravessadas pela força estatal, nem pela mercantilização do capital, mas por “direitos comuns” que as protejam e as liberem ao mesmo tempo."

"Essa mercantilização da vida, ou das imagens da vida na Internet, guarda relação com o debate teórico, aberto por Foucault, ao descrever que há um nova arte de governar a liberdade dos sujeitos, o biopoder. Este investe na vida como um todo, ativando-a e a pondo a atuar. Essa nova arte opera com mecanismos que têm por função “produzir, insufl ar, ampliar as liberdades, introduzir um ‘a mais’ de liberdade por meio de um ‘a mais’ de controle e de intervenção” (Foucault, 2008a, p. 92). Na lógica do biopoder, já não se governa somente o corpo da população, mas todo o seu meio ambiente, a sua comunicação, os seus conhecimentos e seus afetos, através da geração incessante de riscos. O risco serve para limitar a independência (portanto, a ação livre), expandir o medo e a aceitação dos discursos e práticas de segurança."

"Nesse sentido, a liberdade na rede, para aqueles que querem transformá-la em commoditie 2.0, é uma liberdade negativa, porque, antes, é uma liberdade regulada por leis de direitos autorais e propriedade intelectual, que permitem que o sonho fordista das corporações de mídia seja realizado: “Transformar-se em grande fábrica que monitora as atividades de todos online” (Barbrook, 2003). E com isso são capazes de mobilizar um biopoder que produz discursos, práticas cotidianas, atitudes e processos de aprendizagem que estão constituídos nas máquinas participativas da Internet."

"Além de mídias de fãs e celebridades, a Internet participativa se vê mergulhada na lógica dos “pequenos Roberto Marinho” – uma classe de (micro) blogueiros e perfis de redes sociais cuja principal tarefa será a de caçar usuários paraquedistas, pautando-se exclusivamente por assuntos do momento e por trocas incestuosas de links com outros blogueiros. Eles criam um campo restrito de perspectivas e configuram uma ecologia na qual as ideias e as informações são sempre as mesmas em diferentes blogs."

"O efeito colateral dessa “liberdade negativa”, promovida pelas corporações de mídia online, será a propriedade e a fragmentação dos bens comuns, mais do que uma busca incessante pela produção de repetições balbuciantes dos fãs online. Nessa perspectiva, a cultura se vê ameaçada pelos códigos de
copyright estabelecidos pelo capital midiático, que estabelece os modos pelos quais os bens culturais devem circular e serem usados. Na onda 2.0, dá-se com uma mão para se retirar com a outra. “Nunca o copyright protegeu um leque tão amplo de direitos, contra um leque tão amplo de atores, por um tempo tão longo” (Lessig, 2005)."

"Nesse sentido, a Internet, na sua confi guração econômica atual, veicula uma ideologia de liberdade desregulada, quando, na prática, é subsumida às arquiteturas e protocolos que mantêm sua cultura sobredeterminada por um biopoder capaz de estimular a criação de subjetividades. Por outro lado, embora haja verdade na conversa em torno da Web 2.0 com seus blogs, wikis, folksonomics, YouTubes e redes sociais, ela difi cilmente coincidiria com a opinião veiculada pelos apólogos da Internet sobre o signifi cado da mudança na comunicação e nos negócios. Na nova web, eles anunciam, a publicidade encontraria a nova voz dos grupos da cultura da mídia, um público auto-organizado e participativo que a transformaria em uma honesta recomendação crítica feita por seus próprios usuários. Os usuários se transformariam em “sócios” das empresas através de sua cooperação interessada. A colaboração e a livre expressão uniria empresários e usuários nesse poderoso ambiente de negócios integrados (Levine, Locke, Searls e Weinberger, 2000)."


4. A guerra do código e os limites da rede colaborativa


"As indústrias de massa continuam tão estúpidas quanto antes. Como os imperadores antes de sua decapitação, são incapazes de aprender qualquer coisa. E Lehman, o pai de toda essa excrescência, pareceu ser a única pessoa sensata quando disse que o DMCA estva morto no “Digital Dystopia” da McGill. O fato de as empresas empalidecerem, mandando seus gerentes apagar o código à força dos blogs e dos sítios onde estavam publicados gerou uma outra insurreição, pois, quanto mais se apagava o código, mais ele se multiplicava; como uma espécie ameaçada de extinção. Com sua divulgação, aqueles discos BluRay e HD-DVD fi caram desprotegidos. A criptografia da indústria de massa sempre será falha e porca, porque seus segredos tornaram-se de polichinelo na era da multidão."

"(...)Houve quem comparasse toda essa movimentação com a carta impressa de Lutero pregada na porta da Igreja, que desencadeou a Reforma. Ela marcou a entrada em cena do poder da imprensa na sociedade e o poder da consciência individual na formação da massa. Poder este que gerou a mídia de massa e os formadores de opinião. Exageros à parte, a guerra do código que quebrou a criptografi a do HD-DVD e do Blu-Ray marcou a afirmação dos que se envolvem com as práticas das mídias digitais com o exercício da cidadania digital, e não mais com o lugar dos consumidor."



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Disciplina: Cibercultura
Universidade Federal do Ceará

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