O Culto do Amador

terça-feira, março 27, 2018


Andrew Keen é um escritor inglês, formado em História pela London University, e pós-graduado em Ciência Política pela Universidade de Berkeley. Em seus livros ele aborda assuntos relacionados à mídia, à cultura, e à tecnologia. Sendo um grande crítico da Web 2.0 - conceito que criou para definir o conjunto de comunidades interativas que permitem a participação de usuários, como as redes sociais -, o escritor retrata em seu livro O Culto do Amador, como as novas tecnologias estão destruindo nossa economia, cultura e valores. Ou seja, "A ideia fundamental é a de que a “cultura supervisionada” [curated culture] é algo bom; que o velho mundo midiático, o complexo ecossistema de indivíduos entre o autor e o público, serve para filtrar e melhorar o conteúdo. Quando você se desfaz dessa mediação, com o argumento de que a nova mídia é mais eficiente e lucrativa, também está se desfazendo de valores fundamentais e os resultados disso podem ser catastróficos.", é o que disse o autor em uma entrevista para a Revista Cult (clique aqui para ler a entrevista completa).





Fichamento

O Culto do Amador, Andrew Keen
Traduzido por Riverson

Introdução


"(...)Segundo a teoria de Huxley, se fornecermos a um número infinito de macacos um número infinito de máquinas de escrever, em algum lugar alguns macacos acabarão criando uma obra-prima — uma peça de Shakespeare, um diálogo de Platão ou um tratado econômico de Adam Smith."

"A tecnologia de hoje vincula todos aqueles macacos a todas aquelas máquinas de escrever. Com a diferença de que em nosso mundo Web 2.0 não são mais máquinas de escrever, e sim computadores pessoais conectados em rede, e os macacos não são exatamente macacos, mas usuários da Internet. E em cez de criarem obras-primas, esses milhões e milhões de macacos exuberantes - muitos sem mais talento nas artes criativas que nossos primos primatas - estão criando uma interminável floresta de mediocridade. Pois os macacos amadores de hoje podem usar computadores conectados em rede para publicar qualquer coisa, de comentários políticos mal informados a vídeos caseiros de mau gosto, passando por música embaraçosamenet mal-acabada e poemas, críticas, ensaios e romances ilegíveis."

"Neste momento, há 53 milhões de blogs na Internet. O número dobra a cada seis meses. Enquanto você leu este parágrafo, dez  novos blogs foram criados. Se mantivermos o ritmo, haverá mais de 500 mi de blogs em 2010, corrompendo e confundindo coletivamente a opinião popular sobre todas as coisas, da política ao comércio, das artes à cultura. Os blogs tornaram-se tão vertiginosamente infinitos que solaparam nosso senso do que é verdadeiro e do que é falso, do que é real e do que é imaginário. Hoje em dia, as crianças não sabem distinguir entre notícias críveis escritas por jornalistas profissionais objetivos e o que leem em fulano.blogspot.com. Para os utopistas da Geração Y, toda postagem é a versão da verdade de mais uma pessoa; toda ficção é a versão dos fatos de mais uma pessoa."

"Além disso, há a Wikipédia uma enciclopédia on-line em que qualquer um com polegar opositor e cinco anos de escola pode publicar qualquer coisa sobre qualquer tópico de AC/DC a zoroastrismo. Desde o nascimento da Wikipédia, mais de 15 mil colaboradores criaram quase três milhões de verbetes, em mais de uma centena de línguas diferentes – nenhum deles editado ou atentamente examinado quando à sua exatidão. Com centenas de milhares de visitantes por dia, a Wikipédia tornou-se o terceiro site mais visitado em busca de informação e eventos em curso; uma fonte de noticias com mais créditos que os websites da CNN ou BBC, embora a Wikipédia não tenha nenhum repórter, nenhuma equipe editorial e nenhuma experiência na coleta de noticias. É o cego guiando o cego - infinitos macacos fornecendo informação infinita para infinitos leitores, perpetuando o ciclo de desinformação e ignorância."

"O New York Times noticia que 50% de todos os blogueiros blogam com o propósito exclusivo de relatar e partilhar experiências sobre suas vidas pessoais. O slogan do YouTube é “Transmita-se a si mesmo”. E transmitir a nós mesmos é o que fazemos, com toda a autoadmiração desavergonhada do Narciso mítico. À medida que a mídia convencional tradicional é substituída por uma imprensa personalizada, a internet torna-se um espelho de nós mesmos. Em vez usá-la para buscar notícias, informação ou cultura, nós a usamos para sermos de fato a notícia, a informação, a cultura."

"Esse infinito desejo da atenção pessoal está movendo a parte mais dinâmica da nova economia da internet atualmente – redes sociais com MySpace, FaceBook, Bebo e Orkut. Como santuários para o culto da autotransmissão, estes sites tornaram-se repositórios de nossos desejos e identidades individuais. Eles se dizem devotados à interação social, mas, na realidade, existem para que possamos fazer propaganda de nós mesmos: desde nossos livros e filmes favoritos até as fotos de nossas férias de verão, sem esquecer “testemunhos” elogiando nossas qualidades mais cativantes ou recapitulando nossas ultimas farras."

"Mas não são apenas nossos padrões culturais e valores morais que estão em jogo. O mais grave de tudo é que as próprias instituições tradicionais que ajudaram a promover e a criar nossas notícias, nossa música, nossa literatura, nossos programas de televisão e nossos filmes estão igualmente sob ataque. Jornais e revistas de notícias, uma das fontes mais confiáveis de informação sobre o mundo em que vivemos, estão em dificuldades graças à proliferação e blogs e sites gratuitos como Graigslist, que oferecem classificados gratuitos, solapando a publicação de anúncios pagos. No primeiro trimestre de 2006, os lucros despencaram de maneira impressionante em todas as principais empresas jornalísticas – caíram 69% na New York Times, 28% na Tribune Company e 11% na Gannett, a maior empresa jornalística dos Estados Unidos. A circulação também caiu. O publico leitor do São Francisco Chronicle, ironicamente um dos principais jornais do Vale do Silício, caiu estonteantes 16% apenas no segundo e terceiro trimestre de 2005. E em 2007, a Time Inc., dispensou quase 300 pessoas, sobretudo do corpo de redatores, de revistas como Time, People e Sports Illustrated".

 

CAPÍTULO I - A Grande Sedução


"Eu nunca me dera conta de que a democracia tinha tantas possibilidades, tanto potencial revolucionário. Mídia, informação, conhecimento, conteúdo, público, autor — tudo iria ser democratizado pela Web 2.0. A internet ia democratizar a grande mídia, as grandes empresas, o grande governo. Iria até democratizar os grandes especialistas, transformando-os no que um amigo de O’Reilly chamou, num tom contido, reverente, de “nobres amadores”."

"(...)a democratização, apesar de sua elevada idealização, está solapando a verdade, azedando o discurso cívico e depreciando a expertise, a experiência e o talento. Como observei antes, está ameaçando o próprio futuro de nossas instituições culturais. Eu chamo isso de a grande sedução. A revolução da Web 2.0 disseminou a promessa de levar mais verdade a mais pessoas — mais profundidade de informação, perspectiva global, opinião imparcial fornecida por observadores desapaixonados. Porém, tudo isso é uma cortina de fumaça. O que a revolução da Web 2.0 está realmente proporcionando são observações superfi ciais do mundo à nossa volta, em vez de análise profunda, opinião estridente, em vez de julgamento ponderado. O negócio da informação está sendo transformado pela internet no puro barulho de 100 milhões de blogueiros, todos falando simultaneamente sobre si mesmos."

"Além disso, o conteúdo gratuito e produzido pelo usuário gerado e exaltado pela revolução da Web 2.0 está dizimando as fi leiras de nossos guardiões da cultura, à medida que críticos, jornalistas, editores, músicos e cineastas profi ssionais e outros fornecedores de informação especializada estão sendo substituídos (“desintermediados”, para usar um termo do FOO Camp) por blogueiros amadores, críticos banais, cineastas caseiros e músicos que gravam no sótão. Enquanto isso, os modelos de negócios radicalmente novos, baseados em material gerado pelo usuário, sugam o valor econômico da mídia e do conteúdo cultural tradicionais."

"Nós — aqueles que querem saber mais sobre o mundo, os que são os consumidores da cultura convencional — estamos sendo seduzidos pela promessa vazia da mídia “democratizada”. Pois a conseqüência real da revolução da Web 2.0 é menos cultura, menos notícias confi áveis e um caos de informação inútil. Uma realidade arrepiante nessa admirável nova época digital é o obscurecimento, a ofuscação e até o desaparecimento da verdade. (...)Hoje a mídia está estilhaçando o mundo em um bilhão de verdades personalizadas, todas parecendo igualmente válidas e igualmente valiosas."

"Como disse o ex-primeiro-ministro britânico James Callaghan: “Uma mentira pode dar a volta ao mundo antes de a verdade ter a chance de colocar suas botas”. Isso nunca foi mais verdadeiro do que com a veloz cultura da não-apuração em livre movimento na blogosfera de hoje. Não é necessária  a seriedade de um líder mundial para avaliar as implicações da mídia democra​tizada. Num mundo plano, livre de editores, onde videomakers independentes, podcasters e blogueiros podem postar à vontade suas criações amadoras, onde ninguém é pago para verificar suas credenciais ou avaliar o material, a mídia encontra-se vulnerável aos conteúdos não confiáveis de todos os matizes  – seja e empresas de relações públicas dúbias, multinacionais como a Wal-Mart e a McDonald's, blogueiros anônimos, ou predadores sexuais com sofisticadas identi​dades inventadas."

Nossa atitude com relação à “autoria” também está passando por uma mudança radical, como resultado da cultura democratizada da Internet de hoje. Num mundo onde plateia e autor são cada vez mais indistinguíveis, e onde a autenticidade é quase impossível de ser verificada, a ideia original de autoria e propriedade intelectual tem sido seriamente comprometida. Quem é o “dono” do conteúdo criado pelos personagens de filme de ficção no MySpace? E por um anônimo grupo de editores da Wikipédia? Quem é o “dono” do conteúdo publicado por blogueiros, seja ele originário de porta-vozes das empresas ou de artigos no NYT? A definição nebulosa de propriedade, agravada pela facilidade como podemos copiar e colar o trabalho de outros para fazê-lo parecer como se fosse nosso, resultou em uma nova permissividade preocupante sobre a propriedade intelectual.

 

O Custo da Democratização


"O desfoque da fronteira entre o público e o autor, fato e ficção, invenção e realidade obscurece mais ainda a objetividade. O culto ao amador tornou cada vez mais difícil determinar a diferença entre o leitor e o escritor, o artista e o porta-voz, arte e propaganda, amadores e especialistas. O resultado? A queda da qualidade e da confiabilidade das informações que recebemos, o que desvirtua, ou até corrompe descaradamente nossa conversa cívica nacional. Mas talvez as maiores vítimas da revolução da Web 2.0 sejam as empresas reais com produtos reais, funcionários reais e acionistas reais, como discutirei nos capítulos 4 e 5. Cada gravadora extinta, repórter de jornal despedido ou livraria independente falida é uma consequência do conteúdo grátis gerado pelos usuários na Internet – da publicidade gratuita do Craigslist aos vídeos gratuitos de música do Youtube, à informação gratuita da Wikipédia."

"O que talvez não se perceba é que o grátis está na verdade custando uma fortuna. Os novos vencedores – Google, YouTube, MySpace, Craigslist e as centenas de start-ups, todos famintos por um pedaço do bolo da Web 2.0 – não são capazes de preencher o vazio das indústrias que estão ajudando a destruir, em termos de produtos manufaturados, postos de trabalho criados, receitas geradas ou benefícios conferidos. Atraindo nossos olhares, os blogs e wikis estão dizimando as indústrias da publicidade, da música e da informação, que criaram o conteúdo original que esses sites “agregam”. Nossa cultura está essencialmente canibalizando seus jovens, destruindo as próprias fontes do conteúdo que almeja. É esse o novo modelo de negócios do século XXI"

"Em seu best-seller A Cauda Longa, o editor da revista Wired Chris Anderson comemora o achatamento da cultura, que descreve como o fim da parada de sucessos. No admirável mundo novo de Anderson, haverá espaço infinito nas prateleiras para produtos infinitos, dando a todos escolhas infinitas. A Cauda Longa praticamente redefine a palavra “economia”, deslocando-a da ciência da escassez para a ciência da abundância, um mercado promissor e infinito no qual “ciclamos” e reciclamos nossa produção cultural seguindo nossos corações. É uma ideia sedutora. Mas mesmo que se aceitem os duvidosos argumentos econômicos de Anderson, a teoria tem um furo gritante. Anderson assume que o talento bruto é tão infinito quanto o espaço de prateleira na Amazon ou no eBay. Mas embora possa haver infinitas máquinas de escrever, há uma escassez de talento, competência, experiência e domínio em qualquer área. Encontrar e promover o verdadeiro talento em um mar de amadores pode ser o verdadeiro desafio da Web 2.0. O fato é que a visão de Anderson de uma mídia achatada, sem hits, é uma profecia autorrealizável. Sem o cultivo de talentos não há hits, pois o talento que os cria nunca é cultivado ou não tem permissão para brilhar."

"O talento, como sempre, é um recurso limitado, a agulha no palheiro digital de hoje. Não se encontra o indivíduo talentoso, treinado, naufragado de pijama atrás de um computador, produzindo postagens estúpidas em blogs ou resenhas anônimas de filmes. Cultivar talento exige trabalho, capi​tal, competência, investimento. Requer a infraestrutura complexa da mídia tradicional – olhei ros, agentes, editores, publicitários, técnicos, marqueteiros. O talento é construído pelos interme​diários. Se se os “desintermedia”, acaba-se também com o desenvolvimento do talento."

"A economia da Cauda Longa está toda errada. Utopistas da tecnologia como Anderson sugerem que o conteúdo autocriado resultará de algum modo numa aldeia permanente de compradores e vendedores, cada um comprando pouco e escolhendo de um número extraordinário de coisas. Mas quanto mais conteúdo autocriado é despejado na rede, mais difícil fica distinguir o bom do ruim – e fazer dinheiro com ele. Como Trevor Butterworth relatou ao Financial Times, ninguém está ficando rico com os blogs, nem Markos Zuniga, fundador do blog político mais conhecido, o Daily Kos."

"O grande desafio do mercado da cauda longa de Anderson está em encontrar o que ler, ouvir ou assistir. Se você acha que o sortimento em sua loja de discos é pequeno, espere até a cauda longa desenrolar sua extensão infinita. Arrastar-se pela blogosfera, ou os milhões de bandas no MySpace, ou as dezenas de milhões de vídeos no YouTube procurando um ou dois blogs, músicas ou vídeos de real valor não é viável para aqueles de nós com uma vida ou um trabalho. O único recurso que é desafiado por esta longa cauda de conteúdo amador é o nosso tempo, o recurso mais limitado e precioso de todos."

"Chris Anderson está certo ao afirmar que o espaço infinito da Internet vai dar cada vez mais oportunidades para os nichos, mas o lado negativo é que isso vai garantir que tais nichos gerarão menos receitas. Quanto mais especializado o nicho, mais estreito o mercado. Quanto mais estreito o mercado, mais curto o orçamento de produção, o que compromete a qualidade da programação, reduzindo ainda mais o público e alienando os anunciantes."

"Blogueiros e podcasters assumiram o controle de nossos computadores, de nossos smartphones. O que antes era apenas um estranho culto do Vale do Silício agora está transformando a América. Num desenho de 1993 da The New Yorker, dois cães estão sentados ao lado de um computador. Um deles está com a pata no teclado, o outro o está olhando interrogativamente. “Na Internet”, o cão com o teclado tranquiliza seu amigo canino, “ninguém sabe que você é um cachorro”. Isso é mais verdadeiro do que nunca."

"Na era da autopublicação, ninguém sabe se você é um cão, um macaco ou o coelhinho da Páscoa. Todo mundo está tão ocupado se autodifundindo (egocasting) para dar ouvido ao outro, por demais imerso na luta darwiniana pela compartilhamento da mente. Mas não podemos culpar outras espécies por este triste estado. Nós seres humanos monopolizamos o centro das atenções nesta nova fase da mídia democratizada. Somos ao mesmo tempo os escritores amadores, os produtores amadores, os técnicos amadores e, sim, os espectadores amadores. A hora do amador chegou, e o público já está dirigindo o show."


Leia o fichamento de A Cauda Longa aqui.


Andrew Keen sobre as Redes Sociais:


Disciplina: Cibercultura
Universidade Federal do Ceará

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