Mães universitárias falam sobre os desafios da maternidade na vida acadêmica

quinta-feira, março 15, 2018


As dificuldades de adaptação da maternidade com os estudos são alguns dos motivos pelos quais mães desistem da faculdade

      As mudanças que ocorrem durante os primeiros meses pós-gestação podem ser bastante difíceis para as mulheres, devido a nova rotina de cuidados com seus filhos recém-nascidos. O desgaste emocional e cansaço físico também são comuns. E para as estudantes que precisam conciliar a maternidade com os estudos e atividades da faculdade, a situação se torna mais grave.



       Karollyne Evellyn Fernandes, 25 anos, graduanda em Enfermagem na Faculdade de Tecnologia Intensiva (Fateci), estudava no período da noite e estagiava três vezes por semana antes da gravidez. Em 2015, quando seu filho Joakim Kalil, 2 anos, nasceu, ela teve a oportunidade de pedir licença domiciliar para continuar seus estudos em casa. Porém, optou pelo trancamento do curso por um semestre. “Tinha medo que ele adquirisse alguma doença”, explica.

       Karollyne estava amamentando. E o risco de contaminação tornou difícil para ela continuar com o estágio obrigatório da faculdade. A coordenadora de seu curso a informou que suas únicas opções eram trancar ou, caso optasse pela licença domiciliar, fazer o estágio obrigatório. Por estar preocupada com a saúde de seu filho, ela decidiu cancelar o semestre. Em nenhum momento a opção de adiar o estágio foi mencionada pela coordenadora, e a estudante não chegou a pensar se haveria esta possibilidade.

       A desistência do curso é comum entre as  mães estudantes. O custo financeiro, pouco tempo com os filhos, e os cuidados e atenções que uma criança pequena necessita, tornam-se um dilema para elas. As universidades brasileiras precisam adotar medidas para garantir a permanência destas estudantes nas salas de aula. Como por exemplo investir em creches universitárias, ou adaptar as instalações para que as mães que não tem com quem deixar seus filhos, possam ter um espaço apropriado para os cuidados maternos na própria instituição.

       E com o hábito das mães de levarem seus filhos para a sala de aula, a creche universitária pode, além de prestar auxílio as estudantes, evitar que as crianças permaneçam em um ambiente que não é adequado para elas. Como também impedir que alunos e professores se sintam desconfortáveis com a permanência dos pequenos em sala de aula. Uma vez que eles podem atrapalhar o ritmo de ensino do professor, ou comprometer a concentração dos alunos.

      Vitória Duarte, 22 anos, descobriu que estava grávida de sua filha June, 1 ano, em 2016, um mês antes de fazer intercâmbio. Por conta da viagem ela já havia trancado a faculdade, e como sua filha iria nascer no semestre seguinte, decidiu não voltar a estudar até este ano, quando passou para o curso de Ciências Sociais na Universidade Federal do Ceará (UFC).

      Tendo que dividir a atenção das atividades da faculdade com as necessidades da sua filha, Vitória já sente na pele as dificuldades. Reconhece ainda estar se adaptando à nova rotina, e diz sentir-se muito cansada: “Ainda não consegui pegar o ritmo de estudos a tarde. Chego às 13 horas muito cansada, já que a minha filha ainda não dorme a noite toda. Como ela dorme à tarde, às vezes, eu consigo cochilar e acordo para estudar depois”.

DIREITOS

       A lei de nº 6.202, de 17 de abril de 1975, declara que toda gestante tem direito a licença domiciliar a partir do oitavo mês de gestação, como também aos exames finais de seu curso. E podem estender a licença em casos excepcionais, se comprovado mediante atestado médico. Entretanto, ainda existem mulheres que não possuem consciência destes direitos e acabam efetuando o cancelamento do curso durante o período da gravidez, ou nos primeiros meses pós-gestação.

       Outra lei que é preciso considerar na discussão dos direitos das estudantes mães é a lei de nº 13.257, de março de 2016, no que se refere à amamentação. As crianças nos primeiros meses possuem necessidade de leite materno, o que torna mais urgente a criação de um ambiente favorável às mães dentro das instituições de ensino. Um espaço em que possam manter a criança próxima, como também um lugar para os demais cuidados da maternidade.

       “Na minha faculdade não tem espaço para as crianças, não tem um banheiro adequado para a gente trocar a fraldinha, dar um banho. A gente paga bem para ter o serviço, e eu sei que não é obrigação da faculdade. Mas para facilitar a vida da estudante que é mãe ao mesmo tempo, poderia ter um espaço desses, porque lá não tem”, afirma Karollyne.

Este espaço é essencial para que as mães tenham um tempo livre e dedicado aos estudos, acrescenta Vitória: “Acho que a creche universitária é uma ótima alternativa para as mães que estudam. Não só no período das aulas, mas também no contra turno, para gente poder estudar". As universidades brasileiras devem se atentar a essa nova demanda, e contribuir para suprir as necessidades destas mães.
      

Disciplina: Jornalismo Impresso I
Universidade Federal do Ceará

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